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Agapito: o embaixador do Arapixuna
Publicado 30 de abril de 2016

Por Cristovam Sena (*)

Em 1981, criamos a Biblioteca Boanerges Sena. Em 1988, comecei a estruturar o Projeto Memória Santarena. Adquiri uma filmadora Panasonic M9000 – grande e pesada – e passamos a colher depoimentos de personalidades que compõem a própria história política, social, esportiva, econômica, religiosa e folclórica de Santarém.

Trabalho que continuo realizando, sem a frequência do início, agora numa Sony handycam – pequena e leve – que cabe na palma da mão. Hoje, mais de 50 entrevistados compõem a galeria dos nossos personagens.

A partir de 2011 esses depoimentos começaram a ser transcritos e editados em formato de livros, sendo o primeiro o de José da Costa Pereira, famoso Zeca BBC, lançado por ocasião dos festejos dos 350 anos de Santarém.

O último, o do seu Agapito, editado ano passado. Sexto livro editado: Zeca BBC, Dom Tiago, Isoca, Emir Bemerguy, Dica Frazão e Agapito.

Agapito de Andrade Figueira foi o quarto personagem entrevistado. Entrevista realizada no dia 2 de abril de 1989, um domingo, no sítio do seu filho Paulo Figueira, na comunidade do Irurama, região do Eixo Forte.



Estava com 72 anos. Perguntado se valeu à pena viver, respondeu ao Manuel Dutra, que o entrevistava:

“Quero ainda viver mais vinte anos para ver até que ponto vai chegar o nosso Brasil”.

Seu Agapito foi um homem simples. Primeiro o conheci através das inúmeras estórias criadas com o seu nome. Estórias que envolviam sua pessoa em situações hilariantes. Depois o conheci pessoalmente através dos filhos, passamos a ter um relacionamento mais próximo e frequente.

Em novembro de 1990, em sua companhia, participei de uma pescaria no lago do Atumã, Alenquer. Os filhos Paulo, Djalma e Osvaldo de Andrade estavam presentes.

A viagem de barco para o lago foi memorável. A bordo um sanfoneiro, acompanhado de zabumba e pandeiro, animava a vigem tocando sua música preferida, que ele pedia com insistência: “Entre tapas e beijos”.

Em 1992, o convidei e ele aceitou vir conhecer a biblioteca do ICBS. Era sábado. Após a visita ficamos comendo peixe e tomando cerveja.

Aos 75 anos aparentava boa saúde, comia bem e de tudo, acompanhava nossa turma na cervejada. Estava alegre, aceitou contar seus próprias “causos” – o que não gostava de fazer.

Contou a última e disse que achou interessante. A piada da festa na sede do Luso América, em Arapixuna, que as meninas que não tinham sido convidadas foram “se inxirir” querendo dançar.

No dia 24 de dezembro de 1993 participou na residência do genro e amigo Tarcísio Lopes, da festa do Natal. No dia seguinte continuava ao seu lado, agora no hospital, Tarcisio estava com um rim paralisado.

No dia primeiro de janeiro de 1994, uma sexta-feira, às quatro horas da tarde, sepultava o genro amigo. Tarcisio era diabético e abusou nas comemorações natalinas.

Durante o velório, conversando com seu Agapito ele contou-me como tinha sido a festa na casa do Tarcisio: pitiú assada e ventrecha de pirarucu dava no meio da canela, tudo isso regado a 51, uísque, vinho e cerveja.

A morte do genro abalou o sogro. Cinco dias após o enterro seu Agapito era internado no Hospital São Camilo, suspeita de obstrução intestinal, conhecido nó na tripa. No outro dia, seis de janeiro, fui visitá-lo no hospital. Na saída conversei com a Dra. Eva Gentil. Fui informado que seu caso era irreversível.

Na manhã do dia seguinte (07/01/1994) fui avisado pelo Paulo Figueira da morte do seu Agapito. Faleceu aos 76 anos de idade.

Homem honrado, amigo, respeitado por todos. Seu enterro foi bonito, os amigos de Arapixuna compareceram em peso lotando a Catedral. Foi sepultado no cemitério Nossa Senhora dos Mártires.

Agapito de Andrade Figueira foi um líder carismático, com influência na história política e religiosa da sua Arapixuna querida. Não acumulou bens materiais, doava mais do que recebia. Ajudava mais do que era ajudado.

Ao fazer de Santarém sua segunda morada virou lenda e as estórias com o seu nome ainda hoje continuam sendo contadas, empurradas pela força da sua popularidade. As primeiras depois de morto começaram a circular logo após a noticia do seu falecimento se espalhar pela cidade. Os autores anônimos brincavam com sua chegada ao céu.

Interessante destacar que esses autores não tinham autonomia sobre o personagem criado por eles. Estavam presos à sua forte personalidade, que impunha às estórias um padrão que correspondesse à sua maneira de ser. Por isso, nenhuma das brincadeiras criadas com o seu nome feriam a sua dignidade, desvirtuavam sua personalidade. Estavam, sim, ligadas ao homem simplório que era.

Mesmo não sendo capaz de compreender o porquê daquilo que ele chamava de “movimento” com o seu nome, conseguiu impor no folclórico personagem criado, seu perfil de homem honrado.

Devido a essas estórias seu Agapito de Andrade Figueira passou a ser conhecido na região e no resto do Brasil. Quem visitava Santarém e a elas era apresentado, se encarregava de levá-las para longe. E elas iam se espalhando como as sementes da samaumeira, atravessando rios, percorrendo quilômetros, levadas pelo vento e pelas águas. Piadas inocentes, nascidas da anônima criatividade popular.

Quando lhe perguntavam como foi que tudo aconteceu, seu Agapito respondia que deve ter sido por causa do seu nome, e acrescentava: “O povo que inventa. Não sei porque simpatizaram comigo. Nenhuma dessas piadas tem fundamento”.

O filósofo romano Tito Lucrécio (99 – 55 AC) já dizia que nada pode nascer do nada assim, a primeira estória do seu Agapito não deve ter surgido do nada. Quem contou a primeira? Nem ele sabe, creio que ninguém sabe. Mas o Anésio Oliveira, que namorou uma das suas filhas, é lembrado como o iniciador das estórias que fizeram do seu Agapito o personagem que extrapolou o âmbito regional.

O certo é que elas surgiram, a platéia gostou, aprovou. Proliferaram novos causos ao sabor da criatividade de produtores anônimos, que antes do seu Agapito tiveram no pedreiro Timóteo farto material para suas estórias.

Agapito nasceu na comunidade ribeirinha do Arapixuna, próximo a Santarém, localizada no “Furo do Jari”, acidente geográfico que liga o Rio Tapajós ao Amazonas.

Sempre se dedicou ao trabalho comunitário no Arapixuna e durante 14 anos foi presidente do clube Luso América. Na política foi partidário da antiga Arena e adversário ferrenho de Magalhães Barata.

Em 1989, aos 72 anos, dizia que queria ainda viver mais vinte anos para ver até que ponto chegaria o nosso Brasil.

Infelizmente não conseguiu chegar ao século XXI para ver a transformação do Brasil, de Santarém, da sua Arapixuna.

No dia 07 de janeiro de 1994 morreu o homem Agapito. Uma semana após ter falecido seu genro Tarcísio Lopes.

Morreu o homem, permaneceu a tradição do personagem. Tradição que precisa ser revigorada, retransmitida para as futuras gerações.

Nossa intenção com “Agapito: o embaixador do Arapixuna” é não deixar os dois desaparecerem: as pegadas no caminho percorrido pelo homem e a tradição do personagem.

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* Engenheiro florestal, é diretor-fundador do ICBS, Instituto Cultural Boanerges Sena.


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