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terça-feira, fevereiro 04, 2014

A dor da derrota.

“Mas, nem só de flores vive quem se arrisca neste meio.
Uma derrota dói, mas dói muito mais do que se imagina.
E a dor se inicia ainda dentro da arena quando saímos de campo.
Sentado num banco qualquer do vestiário parece que a vida se nega a passar.
Apesar do movimento, ainda que triste, que nos cerca, há como que um bloqueio instantâneo na memória e na percepção. (Do diário de Sócrates) 

Juca Kfouri



Para que o torcedor se dê conta de que tanto quanto ele, ou até mais que ele, o jogador que perde sente a derrota mesmo quando sonha. (JK)

Lentame…nte começamos a retirar do corpo as vestes que nos acompanharam naqueles 90 minutos de jogo.
Sujas e desconjuntadas, parecem trapos.
Eu mesmo sempre me senti um farrapo- se é que podia me considerar alguma coisa naquele momento.
A fronte caída e os braços arqueados desnudavam liminarmente o estado de espírito.
Encaminho-me ao chuveiro para, quem sabe, extirpar o dissabor instalado.
A água gelada não produz grandes transformações.
Pouco a pouco o silêncio se instala.
Olho para os lados e vejo ninguém.
Todos haviam se retirado sorrateiramente como a esconder certa vergonha e incompetência.
Vestindo-me, relembro eventos anteriores de extrema felicidade e prazer.
O contraste piora ainda mais o meu humor.
Reflito sobre as incongruências que o cotidiano nos oferece com incômoda freqüência.
Avaliações insanas e obcecadas.
Num dia somos deuses do Olimpo e Eros é perene a nosso lado.
Já no outro nos tornamos pessoas vis e descartáveis.
É muita incoerência a nos desafiar.
A nos tocar fundo na alma e mexer com nossos mais escondidos sentimentos.
É como se nos descobrissem inevitavelmente.
Uma estranha invasão. Que nos provoca, fere e mata um pouco a cada segundo.
Mas é de uma riqueza tão profunda quanto dolorida.
No caminho de casa tento esquecer os fatos recentes. Impossível.
Aquela bola que cruzei poderia ter sido mais lenta, mais à frente ou um pouco mais alta. Facilitaria a conclusão.
Meneio a cabeça. Não há como modificar o que se passou.

Volto à realidade.

Porta de casa, passos largos—enfim no meu abrigo.

Ele há de me proteger, saciar e aliviar. Procuro por companhia e nada. A solidão talvez seja a melhor companheira neste instante. Estatelo-me no sofá. Bebo alguma coisa que relaxe, me envolva e devolva o bem estar perdido. O líquido rarefeito invade a garganta com sofreguidão. Não me seduz. Esqueço-o.

Aquele lançamento no contra-ataque que tinha tudo para ser certeiro desviou na zaga. Centímetros à direita ou à esquerda possibilitariam a perfeição. Um erro, um único erro que poderia ter sido evitado. Sem ele teríamos tido mais chances e a derrota talvez não acontecesse. E eu não estaria deste jeito.

Doces sonhos!

Corro em busca de uma música que acalme e me encante. Infelizmente me sinto mais triste. Uma convulsão sentimental ataca e expele algumas lágrimas fugidias que escorrem por meu rosto cansado.

Aquela falta batida na intermediária tinha o destino certo. Deveria cair à frente do goleiro e escorregar por baixo de seu corpo. Sairíamos ganhando e nada nos tiraria a vitória.

Puro devaneio! Estou arrasado. Mesmo com todo o esforço despendido, entregando-me às últimas consequências, sinto-me um nada, um zero à esquerda. É como se me tivessem tirado a consciência. Não consigo articular sequer um raciocínio lógico. O vazio cerebral se instalou de forma absoluta.

Pego um livro e não consigo construir suas imagens. Nada me consegue seduzir.

Resolvo tentar dormir. Vagarosamente me encaminho para o leito. Deito-me. Fecho os olhos mas as imagens não se afastam nem por um instante. Corroem-me por dentro. Vejo, como se fosse real, um cruzamento vindo da direita. O jogo ainda estava empatado. A bola vem limpa. Mato no peito ainda fora da área, driblo o primeiro zagueiro que se aproxima, coloco no meio das pernas do segundo e me vejo cara a cara com o goleiro. A multidão se levanta e grita. Uma onda de otimismo invade meu ser. Escolho o canto. Desloco o arqueiro para um lado e toco mansamente para o outro.

Neste momento—por incrível que possa parecer é sempre assim–, um barulho ensurdecedor de um caminhão de lixo na minha porta, me desperta.

Suado, agitado e assustado, eu me vejo.

E tento recuperar o gol que permaneceu no sonho interrompido. Que nada!

Ele nunca existiu. Só na vontade louca de modificar o que se passou. Irresponsavelmente tento voltar a dormir.

Impossível.

É mais uma noite de derrota que é infinita até a próxima vitória.”

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